Do blues ao teatro ao som da gaita
Flávio Vajman não é apenas um gaitista de blues. Possui trabalhos em várias vertentes, principalmente voltados ao teatro e à poesia; conheça um pouco sobre um dos fundadores da Fábrica de Animas
Foi na Universidade Livre de Música (ULM), em 1990, que Flávio Vajman, filho de uma iugoslava com um brasileiro, resolveu ampliar seus horizontes musicais. “Naquele ano, a ULM abriu inscrições para vários cursos. Como alguns deles eram concorridos e com poucas vagas, optei pelo curso com o maior número de vagas e menor procura, justamente o de harmônica de boca”, diz o gaitista. Aparentemente sem querer, Flávio Vajman achou um norte para sua carreira musical.
A opção acabou agradando em cheio o aspirante a gaitista. “Nesse curso, ministrado pelo harmonicista Clayber de Souza, acabei me envolvendo mais na gaita do que me envolveria por outro instrumento”. A dedicação foi tanta, que dois anos após iniciar nos estudos, Flávio Vajman já lecionava. “Foi nessa época que ingressei como músico em uma companhia de teatro. Viajávamos bastante, e aproveitava as cidades por onde passávamos para fazer shows com a banda da peça e tirar um troquinho a mais. Também nessa época fui admitido como professor do SESC Pompeia, onde permaneci por sete anos. De uma hora para a outra tudo havia ficado profissional”, relembra.
Aluno também dos grandes mestres Ronald Silva e Ulysses Cazallas, Flávio Vajman revela que o fato de ser guitarrista também o ajudou muito em sua evolução na gaita diatônica. “No início da década de 90 não havia professores de diatônica. Para entender melhor a estrutura da diatônica, colei no braço da guitarra etiquetas correspondentes às notas, inclusive as notas extras, na época os tão almejados bends. Executava solos na guitarra e transferia para a gaita”.
Depois de um longo hiato em sua carreira, quando o gaitista ficou por longos oito anos fora da cena musical dedicando-se apenas à sua casa, a Juke Joint, Flávio Vajman, atualmente, participa frequentemente de shows de bandas da cena underground, como Saco de Ratos e Os Trovadores de Bordel. Além disso, mais voltado ao Blues, o harmonicista tem um duo com o Guitarrista Rodrigo Battello, anteriormente chamado de Duo Cotton Pickers.
Hoje, a grande banda de Flávio Vajman é a Fábrica de Animais, projeto com nome inspirado no romance de Edward Bunker e fundado juntamente com a atriz Fernanda D’Umbra. “Começamos com alguns covers, como Nina Simone, Tom Waits e outros. Aos poucos fomos fazendo nossas músicas, muitas em parceria com amigos poetas, como o Marcelo Montenegro, um cara que lembra muito aquele clima do Sam Shepard, o roteirista de Paris-Texas. A Fábrica de Animais, hoje, é muito conceituada no meio teatral e literário, e não é vista apenas como uma banda de blues, talvez por suas letras mais elaboradas e cantadas em português”, revela Vajman.
Muito inspirado no Califórnia blues, em especial por Rod Piazza, Vajman acredita que o cenário musical no Brasil está um tanto confuso, principalmente quando o assunto é blues. “O blues, antes de tudo, é uma forma étnica, tão formidável, pois foi a manifestação cultural de um povo reprimido. Não defendo a repressão como benefício artístico, mas foi o fato em vários gêneros. Fico magoado com essa elitização do blues que ocorre no Brasil, pois o gênero é, por excelência, “marginal”, e deveria ser tocado em qualquer boteco de esquina a um preço módico”, afirma o gaitista.
Com relação à entrada da Bends Harmônicas no mercado de gaitas, Flávio Vajman é enfático. “A qualidade vai subir em nível mundial. Nota-se que antes da Bends as fábricas de gaitas tratavam os gaitistas como simples consumidores e mantinham relação restritamente comercial, aliás, péssima relação. O fabricante tem que ouvir os seus consumidores, ficar atento às necessidades e oferecer produtos de acordo. Depois da Bends até empresas estrangeiras ‘estão correndo atrás do prejuízo’”, diz.
“A atenção de uma fábrica ao gaitista era o que faltava. Hoje, com a Bends Harmônicas, a gente pode ligar para fábrica e o gerente com certeza irá nos atender, vai considerar nossas críticas, elogios e sugestões e vai tomar as devidas providências considerando sempre o lado do músico. A filosofia da Bends não é a de uma empresa comum, baseada na lei da oferta e da procura. Ela cria a procura e a oferta, investe no gaitista, divulga a gaita e faz o instrumento crescer, fomentando o mercado e abastecendo com produtos de qualidade. Por isso, novos harmonicistas com certeza surgirão; afinal, é uma empresa dirigida por um apaixonado pelo instrumento”, completa Flávio Vajman.
A gaita no teatro: a história de Flávio Vajman
Iniciei no teatro muito cedo, adolescente ainda. Embora nunca tenha me dado bem nesse meio, sempre permaneci envolvido. Minha irmã é atriz, meu cunhado é ator e até meu sobrinho já está atuando. Minha mãe também foi produtora. Sempre permaneci de uma maneira ou outra envolvido no teatro. Então, no festival de teatro de Francisco Beltrão, onde fui com a Cia. em que tocava, conheci o dramaturgo Mário Bortolotto, da Cia. Cemitério de Automóveis, em 92. O Bortolotto me mostrou uma forma, até então desconhecida para mim, de teatro, música e literatura, onde músicos complementavam e davam suporte aos poetas em meio às verborragias e os espetáculos continham trilhas sonoras alucinantes. Depois fui convidado pelo Mário Bortolotto para participar como músico de algumas de suas montagens.
Conheci também nessa época os escritores da beat generation, como Kerouac, Ferlinghetti, Ginsberg e os demais, e, mesmo sendo literatura, de alguma forma carrego a influência deles quando toco. Tenho como referência também, embora mais associada ao punk rock, a Patti Smith, meio poetisa meio cantora. A gaita cai muito bem nessas leituras porque ela pode ser tocada ‘meio falada’. Por causa da articulação do organismo quando a gente toca, é igual a da voz. O Tom Waits é outro que eu gosto nessa cena mais underground e que me influenciou muito. Charlie Musselwite e John Hammond foram os gaitistas que tiveram a honra de gravar com ele.
Essas releituras música-poesia são um pouco diferente de uma banda. Não têm exatamente as partes solo, refrão e tema. É mais espontâneo, e é disso que eu gosto nessas participações que eu faço com os escritores.